domingo, 30 de novembro de 2014

RuPaul Drag Race: elevando 'drag' a 'star'



A cultura underground das drag queens começou a mudar em 2008, com o surgimento do reality show "RuPaul Drag Race". No programa, drag queens selecionadas pelo apresentador e idealizador do programa, RuPaul, competem em uma série de desafios diários que envolvem talentos como costura, encenações, canto entre outros. Leva o prêmio quem comprova ter mais "charisma, uniqueness, nerve, and talent" (carisma, singularidade, equilíbrio e talento).

E os brasileiros tem estado entre os mais fiéis espectadores de "RuPaul's Drag Race". Um dos reality shows mais divertidos e bem produzidos dos últimos anos, o programa tem arrebatado novos fãs a cada temporada e é fenômeno nas redes sociais. Como reflexo disso, às vésperas da estréia da sétima temporada, a Folha de S. Paulo entrevistou RuPaul. 

"Esperava sucesso nos EUA, mas jamais imaginei que virasse hit mundo afora", contou RuPaul À Folha de S. Paulo ao ser informado que 7 ex-participantes do reality farão shows no Rio e em São Paulo só no primeiro trimestre de 2015. 

A reportagem inclusive cometeu um erro bastante comum: no título, chamou RuPaul de travesti. No site, postaram uma errata corrigindo que travestis e drag-queens são expressões completamente diferentes. Travestis são homens que se vestem de mulheres (ou vice-versa) pois querem ser assim na vida real. Drag queens são personagens criadas por artistas performáticos, são expressões artísticas, podendo ser mulher ou homem se vestindo como uma personagem seguindo determinado conceito artístico.

Isso é só uma amostra do tanto de desinformação e preconceito que existe por trás de todo glitter e glamour do mundo das drags. Seja no meio LGBTQXYZ, no meio feminista ou no meio hétero. E aos poucos, em uma escala ainda pequena mas significativa, RuPaul Drag Race vem tentando trazer mais informação e expôr todo o sofrimento que as drags tiveram que superar para conseguir explorar seus talentos e ser verdadeiras com quem elas realmente são.

Diversas drag queens que passaram por RuPaul Drag Race se tornaram verdadeiras estrelas. Veja algumas delas:



1. Pandora Boxx

Comediante de NY que participou da segunda temporada do programa. Se destacou por sempre desfilar figurinos divertidos e sempre fazer piada de qualquer situação. Foi coroada Miss Congeniality da temporada e desde então gravou comerciais para a vodka Absolut, fez um especial de TV de stand up comedy, gravou diversos singles, começou a escrever espetáculos de teatro e participou da edição All Stars.







2. Adore Delano

Danny Noriega foi finalista da 7º temporada do American Idol. Mas foi com sua drag Adore Delano que, após ser finalista da 6º temporada de RuPaul Drag Race, gravou seu primeiro álbum e está rodando o mundo em turnê com sua banda. Mesmo sem saber costurar, se destacou pela sua personalidade e carisma.




3. Bianca Del Rio

É a personagem de Roy Hayloc, ator, comediante e estilista. Bianca é uma comediante especilizada em insultos. Na 6º temporada se destacou por sempre ter tiradas cômicas mesmo fora do palco. Antes mesmo de vencer a temporada já havia participado de diversos filmes, séries e espetáculos teatrais. Atualmente viaja pelos EUA em espetáculo próprio.




4. Alaska Thunderfuck 5000

Alaska foi finalista da 5º temporada e ficou marcada por comprimentar a todos com um nasal "Hiiiiiii". Com formação superior em teatro, Alaska se destaca por seus desfiles performáticos e por suas dublagens cheias de expressão. Lançou diversos singles, comerciais e atualmente realiza diversos shows pelo mundo, inclusive recentemente em São Paulo e Rio de Janeiro.





5. April Carrion

Também da 5º temporada, foi eliminada precocemente. Desde então, tem feito shows não só em Porto Rico, sua terra natal, mas em algumas cidades dos EUA, e tem ingressado no mercado de moda, produzido vestidos de alta costura. 





6. Shangela

Participante da 2º temproada e trazida de volta para a 3º. Ficou conhecida pela sua exclamação "halleloo!". Shangela tem feito shows de stand up comedy e participado de filmes e séries de TV como Glee, Bones e 2 Broke Girls.




7. Jujubee

Finalista da terceira temporada, nunca ganhou nenhum desafio no programa. Mas possui uma personalidade muito marcante e engraçada. Ela possui graduação completa em teatro e viaja o mundo realizando espetáculos de lyp-sync (também esteve em São Paulo). 



8. Sharon Needles

Vencedora da quarta temporada do programa, se destaca por seu estilo edgy, seu humor negro, e sua drag punk e "out of the box", mesmo sendo cheio de fobias sociais. Uma drag alternativa.




Mas uma coisa todas essas drags têm em comum: ensinam a todos a se aceitar e superar os preconceitos da vida. Afinal, se você não se amar, como conseguirá amar outra pessoa, "can I get an Amen?".



segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Interestelar (2014): uma ficção científica mais realista



Gosto de ir ao cinema sem nunca ter assistido nem ao menos o trailer do filme.  Mas nos dias de hoje isso está cada vez mais difícil, pois muitas vezes os trailers explodem na sua cara nos lugares mais inesperados. Mas no caso de Interestelar cheguei ao cinema sem saber nada sobre a história, e isso me fez tirar ainda mais proveito dela. 

É redundante dizer que os efeitos visuais são sensacionais. Paisagens hipnóticas e as cenas de ação muito bem dirigidas já seriam o suficiente para carregar o filme (não são montanhas, são ONDAS! WTF!!!)

Mas o diretor e roteirista Christopher Nolan foi muito feliz na construção de uma história de ficção científica que foge à maioria dos clichês do gênero. O filme me transmitiu uma sensação de aventura realista mesmo sendo um universo tão distante de mim. Talvez pelo herói realista e humano que Matthew McConaughey encarnou brilhantemente bem, com destaque para a cena em que ele vê o vídeo dos filhos depois de passados 23 anos. Impossível não se emocionar.

Outro elemento muito interessante foi o design dos robôs. Eles não são humanóides como os demais filmes do gênero fazem os robôs, e sim totens com movimentos retos e relativamente lentos. Mas quando exigido rapidez como na cena de resgate no mar, o robô TARS se moveu de maneira criativa e impressionante. Também foi sagaz do roteiro fazer dos robôs os seres mais dedicados em salvar a raça humana do que os próprios humanos, que no final das contas acabavam lutando por seus interesses individuais.

Os efeitos sonoros e a trilha original foram brilhantemente executados por Hans Zimmer. Uma pena que as vezes o volume fica tão alto que chega a ficar difícil entender as falar dos personagens. Mas descobri em uma entrevista de Nolan que ele usa esta estratégia pois acredita que o públicofica mais atento às falas se precisar se concentrar para ouvi-las.

A história foi incrivelmente bem contada e os elementos mais complexos explicados de maneira não-óbvia e não tão didática. E havia diversos elementos criativos no roteiro, coisa que os filmes de ficção científica vêm pecando em oferecer nos últimos anos.

A primeira parte foi um pouco lenta, mas antes da metade até o final o filme se torna muito interessante. Há alguns furos no roteiro, como a facilidade com que o herói consegue entrar na NASA e o desfecho da história com o Deus ex machina gritante da "mensagem" e o "fantasma" sendo compreendidos pela heroína. 

Sobre a trama, já havia lido e debatido em mesa de bar algumas questões a respeito do tempo, gravidade e a teoria da quarta dimensão. Ver esse assunto usado de maneira brilhante nesse roteiro me fez querer pesquisar um pouco mais sobre as informações usadas. Diversos cientistas acreditam que o tempo seja a quarta dimensão, na qual todas as "faces" acontecem simultaneamente.  Nós somos seres tridimensionais, capazes de experienciar apenas uma "face" de tempo de um único momento tridimensional de cada vez. A passagem de tempo é como nós como seres tridimensionais nos movemos num ritmo constante através da dimensão.

O que vou falar pode ser um grande spoiler, mas foi o que me fez entender melhor a trama: não há um momento "presente" unificado. O tempo passa de maneira diferente em diferentes situações. E os cientistas conseguiram testar isso. A ideia de que podemos envelhecer mais rápido ou mais lentamente dependendo da nossa proximidade de um buraco negro ou da gravidade em geral não é fantasia. Um ser quadridimensional (ou com mais dimensões) pode, teoricamente, ser capaz de perceber passado, presente e futuro simultaneamente. 

Isso tornou o filme muito mais interessante para mim, saber que não só que as informações sobre gravidade, fenda espacial, buraco negro e aeronáutica foram usadas com fidelidade científica, mas também toda a teoria do tempo e espaço.

A teoria do espaço tempo é algo muito difícil para nossa sociedade compreender, já que é tão aceito que nosso tempo passa linearmente e nós o experienciamos conforme ele passa. Imagino que milhares de pessoas que assistiram o filme não fazem ideia dessa teoria e que nossa sensação de tempo é baseada no nosso movimento. Foi brilhante e corajoso da parte de Nolan ousar explorar isso no filme.

Na minha opinião, um dos melhores filmes de ficcção científica das últimas décadas. 

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